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Dieta e risco vascular: da evidência à prática

Dezembro 30, 2025

A alimentação é um determinante central do risco vascular e tem impacto na modulação da inflamação vascular, do stress oxidativo e da disfunção endotelial, mecanismos importantes na progressão da aterosclerose. As Guidelines ESC 2021 e da Sociedade Espanhola de Aterosclerose (SEA, 2024) recomendam a adoção de um padrão alimentar tipo mediterrânico, com elevado consumo de frutas, hortícolas, leguminosas, frutos oleaginosos e cereais integrais, e predomínio de gorduras mono e polinsaturadas, particularmente o azeite virgem extra (EVOO). O consumo de peixe, especialmente de espécies ricas em ácidos gordos ómega-3, é incentivado, enquanto carnes vermelhas e processadas, produtos ultraprocessados, sal e açúcares adicionados é limitado. A evidência sublinha que mais importante do que reduzir a gordura saturada é o que a substitui: trocas por gorduras insaturadas reduzem o colesterol LDL (Ros et al., 2025). Estudos clínicos randomizados corroboram estas recomendações. O estudo PREDIMED, de prevenção primária, demonstrou uma redução relativa de 30% em eventos cardiovasculares major em indivíduos que seguiram uma dieta mediterrânica (DM) suplementada com EVOO ou frutos oleaginosos (Estruch et al., 2018). O estudo CORDIOPREV, de prevenção secundária, evidenciou menor progressão da aterosclerose com uma DM rica em EVOO comparativamente a uma dieta hipolipídica e rica em hidratos de carbono complexos (Jose Jimenez-Torres 2021). Por outro lado, a ESC/EAS 2025 e a SEA 2024 concluem que a suplementação com vitaminas e minerais não é recomendada para redução de risco vascular, pela ausência de evidência de benefício e potenciais riscos em doses elevadas. A SEA 2024 acrescenta que padrões alimentares de elevada qualidade promovem não só saúde vascular, mas também sustentabilidade ambiental, sendo apresentada como uma medida que beneficia simultaneamente a saúde individual e a do planeta. A evidência atual aponta para que a qualidade global da dieta, mais do que um único padrão alimentar, seja o principal preditor de proteção vascular. Uma meta-análise de 159 estudos prospetivos (6,2 milhões de participantes), mostrou que dietas de elevada qualidade reduziram em 17% a incidência e mortalidade por doença cardiovascular (Taylor et al., 2023). O conceito de padrão alimentar, ao invés do foco em nutrientes isolados, reflete a interação sinérgica entre nutrientes e compostos bioativos na matriz dos alimentos, modulando vias metabólicas e inflamatórias determinantes da função vascular. No contexto português, a DM assume-se enquanto modelo alimentar de promoção de saúde vascular e sustentabilidade. A sua implementação requer o envolvimento coordenado de nutricionistas, médicos, farmacêuticos, e outros profissionais de saúde, através de intervenções breves, consistentes e baseadas na evidência. É com esta ação coletiva, juntamente com a implementação de políticas de produção e consumo alinhadas com as recomendações, que poderemos, efetivamente, tornar a aterosclerose uma doença rara

Num artigo de opinião que explica o peso da alimentação em doentes com aterosclerose, Ana Margarida Pinto, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, baseia-se em guidelines e estudos clínicos que corroboram as recomendações. Leia o conteúdo que faz, também, uma revisão do contexto português regido por uma dieta mediterrânica como promotora…

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